Expedição inédita descobre novas espécies no Norte do Brasil

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O anambé-de-whitely foi uma das espécies descobertas para o Brasil — Foto: Ramiro Melinski/Acervo Pessoal
Por G1.globo.com

No extremo norte do estado de Roraima há uma Unidade de Conservação brasileira que protege uma biodiversidade única: a maior área de florestas montanas (acima de mil metros de elevação) do país. Apesar da abrangência e da alta atividade turística na região do Parque Nacional do Monte Roraima, a esmagadora maioria do território continuava inexplorada cientificamente ou pouco conhecida.

Foi pensando em documentar a variedade de espécies que dominam esse local, coletar materiais e dar diagnósticos quanto à conservação e gestão da área que uma parceria entre o Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio), o Conselho do Povo Indígena Ingarikó (COPING), o Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (INPA) e outras instituições de ensino e pesquisa mobilizou uma equipe de mais 60 pessoas. Entre indígenas e não indígenas, analistas ambientais, estudantes, colaboradores e conhecedores da região integraram o grupo.

Parte da equipe envolvida na expedição ao Monte Roraima que envolveu indígenas e não indígenas — Foto: Alejandro Garcia/Acervo Pessoal
A expedição em si foi realizada entre 28 de novembro e 20 de dezembro de 2019, mas os resultados do trabalho ficam cada vez mais evidentes à ciência: diversos invertebrados ainda não descritos pelo Brasil foram identificados na região, duas espécies de aves também foram documentadas pela primeira vez e também houve novos registros de plantas, sapos e serpentes.

Como bióloga presente na expedição, Isabela Freitas Oliveira, ressalta que tem como objetivo fazer um guia de borboletas da região, em português, inglês e Kapon (a língua dos Ingarikó). Ela, que trabalha há quase 10 anos com esses insetos e costuma fazer coleta deles na Amazônia se surpreendeu com a riqueza de fauna e flora local. “Nós só podemos proteger aquilo que conhecemos. Dessa forma, essa expedição deu o primeiro passo para região e seus habitantes serem benquistos e preservados”, conta ela.

Isabela trabalhou na busca por borboletas ainda não identificadas do Monte Roraima — Foto: Isabela de Freitas/Acervo Pessoal
 
nambé-de-whitely (Pipreola whitelyi) e Grallaricula nana foram as duas aves registradas no Brasil pela primeira vez. Elas nem sequer tem um nome popular por aqui ainda!
O especialista em aves no INPA (Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia) Mario Cohn-Haft afirma que levantar a fauna e flora da Serra do Sol é uma forma de entrar em contato com espécies exclusivas da região. “Ver uma espécie próxima ao cricrió, mas com um colar cor de rosa foi maravilhoso! Um pássaro-preto que só ocorre nesse local, uma emoção. Poder ver e escutar duas espécies diferentes de araponga no mesmo galho, sem preço!”, vibra o ornitólogo.

Grallaria nana foi uma nova ave descoberta para o Brasil e tem ocorrência registrada também na Colômbia — Foto: Gabriel Leite/Acervo Pessoal

Thiago Orsi Laranjeiras é analista ambiental do ICMBio e coordenou a expedição, ele explica que para obtenção desses resultados foram instaladas de armadilhas fotográficas, gravadores, armadilhas luminosas para insetos, iscas para atrair borboletas e abelhas e até drones. “Talvez o maior destaque tenha sido não uma técnica específica, mas sim a utilização de todas simultaneamente, além das abordagens antropológicas para iniciar um processo de documentação do conhecimento tradicional do povo indígena Ingarikó”, comenta.
Gravadores automáticos instalados na mata registraram o canto das aves e sapos simultaneamente na expedição — Foto: Alejandro Garcia/Acervo Pessoal

Os Ingarikó

No Monte Roraima, marco da tripla fronteira entre Brasil, Guiana e Venezuela, habita um povo: os Ingarikó. O nome, na década de oitenta foi glosado como "povo do ápice da montanha", detentores dos conhecimentos sobre a natureza local.

O professor Dilson Domente Ingaricó, representante da comunidade, comentou que, durante apresentação da proposta de expedição, o povo Ingarikó se interessou pelo registro de seus conhecimentos quanto à diversidade biológica. “Acredito que a ciência também surge a partir do saber tradicional, não só no laboratório. A ciência sem a biodiversidade não se fortalece. Nesse sentido, deve haver os lugares que guardam segredos da natureza para que sempre haja curiosidade do ser humano. E que o homem, ao descobrir, a valorize”, define.

Expedição ao do Parque Nacional do Monte Roraima documentou a variedade de espécies do local — Foto: Alejandro Garcia/Acervo Pessoal

A antropóloga Maria Virgínia Ramos Amaral trabalha há cerca de seis anos na região, mas nunca havia estado no topo da Serra do Sol, local explorado nessa situação. Ela ressalta a importância do envolvimento entre os indígenas e não indígenas para o sucesso desse tipo de dinâmica.

“Foi interessante observar o interesse e o respeito que os Ingarikó locais tiveram pelo trabalho desenvolvido pelos pesquisadores e o fato dos pesquisadores não indígenas que participaram da expedição terem procurado saber os nomes indígenas correspondentes às espécies e considerado registrá-los em seus relatórios e suas publicações”, relembra.
 
Por G1.globo.com

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